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Escritoras negras: resgatando nossa
história
Maria Lúcia de Barros Mott
Este levantamento sobre as escritoras negras foi sendo elaborado aos
poucos, ao longo dos doze anos que venho pesquisando a história
das mulheres. Não é o resultado de um trabalho sistemático,
trabalho que considero necessário e fundamental. Gostaria de 1embrar que sem a colaboração de Eduardo de
Oliveira, Erich Gemeinder, Luiz Mott e Pedro Maia Soares, este trabalho
dificilmente poderia ter sido elaborado. É difícil não se impressionar com a produção literária das mulheres americanas negras do passado, se comparado com a das brasileiras: foi lançado recentemente nos Estados Unidos uma coleção composta de 30 volumes escritos no século XIX, que reúne poesia, ficção, memórias, diários e ensaios produzidos por escritoras negras. Esta coleção, organizada pelo professor Henry Louis Gates Jr., é resultado de uma pesquisa iniciada em 1980, com o objetivo de recuperar a escrita das mulheres negras americanas. Foram levantados cerca de 12 mil textos de ficção, 18 mil poemas e 40 mil resenhas, publicados entre 1827 e 1940, produzidos por escritoras e escritores negros. O livro mais antigo escrito por uma mulher negra nos Estados Unidos data do século XVIII, Poemas sobre vários assuntos, religiosos e moral, de Phillis Wheatley, publicado em 1773. No Brasil o livro mais antigo, de que se tem notícia, escrito por uma mulher negra, seria de Rosa Maria Egipicíaca da Vera Cruz, se o manuscrito não tivesse sido quase totalmente destruído por seu confessor quando a ex-escrava foi acusada em 1763 de heresia e falsa santidade. Segundo seu biógrafo Luiz Mott, o livro possuía mais de 200 páginas, algumas escritas por ela, outras ditadas a uma outra religiosa e versava sobre às visões e pensamentos de Rosa. Tinha por título Sagrada Teologia do Amor Divino das Almas Peregrinas. Assim como Phillis Wheatley, Rosa nasceu na África e foi trazida para o "novo mundo" como escrava. Phillis tinha 8 anos e Rosa apenas 6 anos. Quando foi presa pela Inquisição, Rosa afirmou que era natural da Costa de Mina, e da nação courana. Aportou no Rio de Janeiro em 1725, onde permaneceu até os 14 anos, sendo aí deflorada pelo antigo proprietário e posteriormente vendida para Minas onde viveu por quase duas décadas como prostituta. Devido às possessões e visões, a escrava foi examinada por uma junta de teólogos e exorcistas, sendo considerada embusteira e por isso açoitada. Temendo novas represálias, mudou-se para o Rio de Janeiro levada pelo seu confessor, ex-exorcista e co-proprietário, onde fundaram o Recolhimento do Parto, em 1751, destinado a mulheres pobres, parte delas negras e mulatas. Naquela cidade as visões e profecias de Rosa continuaram, devotos
passaram a disputar as suas relíquias, até que o então
bispo do Rio de Janeiro mandou que fosse presa e enviada para Lisboa a
fim de ser interrogada pela inquisição. Até meados do século XIX, o Brasil parece não ter
conhecido nenhuma romancista nativa. Alguns autores consideram Teresa
Margarida da Silva e Orta (1711 ou 12-1793), autora de Aventuras de Diófanes
(l752),. como sendo à nossa primeira romancista, afirmativa que
considero exagerada, pois ela,. embora tenha nascido em São Paulo,
teve toda sua formação em Portugal, onde viveu desde os
4 anos de idade e onde estudou, se casou, teve seus 12 filhos, enviuvou,
foi presa e morreu. Talvez esteja aí, na própria biografia de Teresa Margarida, a primeira dificuldade com a qual vai se deparar o pesquisador interessado na literatura escrita por negros no Brasil: quem considerar como escritora negra. Quem tem ascendência negra, como Teresa Margarida? Quem tem ascendência negra e aparenta ser negra? Quem tem aparência e ascendência e se considera negra? ou ainda: quem além da ascendência, aparência, se vê como negra, e escreve sobre negros? Voltarei a estas questões ao longo deste artigo. Para alguns estudiosos Maria Firmina dos Reis, autora de Úrsula,
seria a nossa primeira romancista. Caso esta afirmativa seja comprovada,
a primeira romancista brasileira seria mulata, como, aliás, o precursor
do romance brasileiro, Teixeira e Souza. Maria Firmina dos Reis nasceu em 1825, em São Luís do Maranhão.
Com pouco mais de 30 anos, em 1859, publicou Úrsula, sem contudo
colocar o seu nome na capa, escondendo-se sob o pseudônimo de "uma
maranhense". O livro conta à história de um amor infeliz
entre uma órfã e um bacharel de Direito. O negro, enquanto
escravo, tem presença marcante no livro. Embora a escravidão
não seja o assunto principal do romance, os escravos têm
um papel importante na trama, .possuem uma história, um passado,
além de sentimentos nobres. A narradora denuncia a violência do sistema escravista e questiona
a sua legitimidade. Os escravos eram arrancados da terra natal, transportado
como animais nos navios negreiros, reprimidos sadicamente em caso de justa
revolta, .e separados de suas famílias, sem respeito algum aos
seus sentimentos. Trabalhavam sem descanso, nem alimentação,
roupas ou moradia adequadas. O já difícil cotidiano vivido
pelo escravo tornava-se pior, devido às arbitrariedades sem limites
praticadas pelos proprietários. É preciso lembrar da posição corajosa de Maria Firmina
ao denunciar a ilegitimidade e violência da escravidão, justamente
no Maranhão, província que era considerada como sendo fortemente
escravista. O fato de o vilão da história, aquele que persegue
a irmã, mata o cunhado e o pretendente da sobrinha, ser o pior
e mais cruel dos senhores, não quer dizer que a escravidão
seja legítima para os escravos que possuem um bom senhor. Túlio
e Suzana, escravos de Luiza B., proprietária boa e compreensiva
não aceitam sua condição de "míseros
e cativos". Maria Firmina situa-se ao lado daqueles autores que condenam a escravidão
porque ela era contrária às leis de Deus, e que acreditavam
que o negro, apesar dos anos vividos sob o cativeiro, não tinha
perdido as suas qualidades naturais. Difere neste ponto de autores contemporâneos,
como Macedo, que condenavam a escravidão, dentre outras razões,
porque ela corrompia o escravo e conseqüentemente contaminava a família
branca. A autora publicou, em 1887, um conto também abolicionista, chamado
A escrava. O regime servil continua violento, separando a mãe dos
filhos, escravizando pessoas de cor livres, colocando crianças
na mais tenra idade no trabalho. Apesar de ter sido publicado já
nas vésperas da abolição, quando os escravos no Sul
abandonavam em massa as fazendas, os personagens escravos mantêm
o mesmo perfil: fiéis, honestos, submissos, humildes e gratos.
Será que a insistência da autora neste perfil escravo não
significaria um alerta aos senhores de que, com a liberdade, os escravos
não iriam se voltar contra os antigos proprietários? A militância de Maria Firmina, segundo seu biografo Morais Filho,
foi além da escrita: recusava-se a andar de palanquim, pois acreditava
que "negro não era animal para se andar montado nele!"
Publicou, ainda, um livro de versos românticos, e compôs letra
e música de gosto popular, como hinos, valsas e autos para pastoral
e bumba-meu-boi. Já nonagenária, morreu na casa de uma ex-escrava. Continuando a lista das escritoras negra do século XIX, incluiríamos
Luciana de Abreu, caso sejam comprovados os dados fornecidos por militantes
do movimento Negro de Porto Alegre, de que a escritora era negra. Andradina de Oliveira, escritora também gaúcha, em uma
pequena biografia de Luciana de Abreu, assim escreveu os traços
da conterrânea: "rosto moreno pérola, grandes olhos
dulcorosos, fronte emoldurada por cabelos escuros". Moreno pérola
seria um eufemismo para se referir à cor mulata da escritora? Nascida em Porto Alegre, em 1847, filha de pais incógnitos, Luciana
foi colocada na roda dos expostos da Santa Casa de Misericórdia.
No livro da Irmandade de São Miguel das Almas, que registra a sua
morte, no item cor, aparece como sendo de cor branca (também Machado
de Assis foi tido como branco no seu atestado de óbito). A tradição
oral, guardada por ex-alunos de mestres da Escola Luciana de Abreu, e
que me foi transmitida por Jussara Ávila, no Movimento Negro de
Porto Alegre, refere-se porém à sua ascendência negra. Adotada por um guarda-livro, após completar o curso primário, permaneceu na escola como assistente da professora. Já mãe, formou-se professora e concorreu para uma vaga no ensino público, sendo preterida apesar da brilhante colocação. Esta não foi a primeira vez que Luciana viu desencorajada de continuar
suas aspirações intelectuais: foi alvo de chacota de suas
colegas de classe quando souberam que escrevia um romance. Qual a razão
destas atitudes hostis? Não estariam relacionadas com o preconceito
existente na nossa sociedade que descrimina não somente as mulheres
inteligentes como sos negros e todos aqueles considerados de origem dita
duvidosa? Luciana fez conferências no Partenon Literário, sociedade
que agregava intelectuais, defendendo a educação das mulheres
e a emancipação gradual dos escravos. Isto, em 1873, 7 anos
antes de morrer. Se até aqui falei de escritoras pouco conhecidas e menos ainda
festejadas nacionalmente, destacarei agora Auta de Souza, cujo livro Horto
teve sem 3 edições entre 1901 e 1936, e recebeu preciosos
elogios da critica, não sendo esquecida nas histórias da
literatura e nas antologias, como em geral acontece com as demais escritoras
brasileiras. Apesar do belo retrato da autora, que ilustra o seu livro Horto, deixar
à mostra a ascendência negra da escritora, alguns biografos
parecem tentar ocultar, como se este fosse um dado desnecessário
ou negativo. Por outro lado, certos críticos têm reservas
em considera-la escritora negra ou afro-brasileira, pelo fato de não
se referir a assuntos ou personagens negros em seus escritos. Também os biógrafos e críticos não fazem
menção à ascendência negra de Gilka Machado,
poetiza carioca, nascida em 1893. A única referência deve-se
Afrânio Peixoto que, comentando com Humberto de Campos um encontro
que teve com a poetisa, disse ter ficado surpreso por ter diante de si
uma "mulatinha escura", bem diferente da mulher branca que conhecera
por fotografia. Acredito que este depoimento de Afrânio Peixoto deve passar pelo
crivo de uma boa pesquisa. Se as fotos de Gilka foram "clareadas",
talvez o fato de a poetisa ser mulata explique, em parte, alguns dos comentários
bastante preconceituosos sobre a sua vida e sua obra. Humberto de campos
reproduz em seu Diário Secreto um comentário feito por Lindolfo
Gomes, que responsabilizava Gilka pela "perdição"
de muitas moças, devido "a seus versos cheios de sensualidade
animal". Em 1901, nascia em Florianópolis, Antonieta Barros, que viria
a ser professora, jornalista, escritora e primeira mulher eleita para
a Assembléia Legislativa de seu Estado, em 1934. Antonieta escreveu na imprensa de Santa Catarina, utilizando o pseudônimo
de Maria da Ilha. Fundou e dirigiu o jornal A Semana (1922-1927) e Vida
Ilhoa (1930). Os artigos publicados no jornal República foram reunidos
e editados em forma de coletânea, em 1937, e reeditados em 1971,
recebendo o nome de Farrapos de idéias. Referem-se a aspectos da
vida cotidiana da cidade, comentários sobre ocorrências nacionais
e, principalmente, a ensinamentos de cunho moral. Aí, dento dos
limites cristãos, encontramos uma Antonieta preocupada com o pacifismo,
com a necessidade de uma campanha nacional pela alfabetização,
com as diferenças sociais e com os papeis sexuais. Em Diário de Bitita, a mineira Carolina Maria de Jesus diz não
ter certeza se nasceu em 1914 ou já na década de 20. Neta
de escravos criados, pela mãe, passou toda sorte de necessidade,
sendo obrigada a abandonar a escola primária para trabalhar numa
fazenda. Quando alfabetizada, lia tudo que lhe emprestava: a Bíblia,
romance como A Escrava Isaura, livros de história, etc.. Perambulou
por várias cidades do Sul de Minas Gerais e do Oeste Paulista a
fim de tratar das pernas doentes, empregando-se como doméstica,
tendo sido trazida para São Paulo por uma patroa. No livro Quarto de Desejo, já encontramos Carolina vivendo na
favela do Canindé, em São Paulo, mãe de três
filhos, sobrevivendo com o dinheiro obtido pela venda de papéis
e outros objetos encontrados no lixo, e escrevendo. Cortejada por novo
pretendente, Carolina registrava no seu diário: "Manuel apareceu
dizendo que queria casar-se comigo. Mas eu não quero porque já
estou na maturidade. E depois um homem não há de gostar
de uma mulher que não pode passar sem ler. E levanta para escrever.
E que deita com lápis e papel debaixo do travesseiro". Com o sucesso de Quatro de Despejo, que teve várias edições
e foi traduzido em mais de 20 países, obteve enorme espaço
nos meios de comunicação, porém, ainda hoje, algumas
pessoas olham com reservas a obra de Carolina, negando inclusive a autoria
de seus livros, atribuindo Quarto de Despejo ao jornalista Audálio
Dantas. Esta não é a primeira vez que o livro de uma escritora
negra tem a autoria atribuída ao apresentador da obra. Lembro aqui
incidentes na vida de uma escrava, contados por ele mesma, da americana
Harriet Jacobs, que por mais de um século foi considerado como
tendo sido escrito por uma abolicionista branca. O desprezo à escritora chegou a tal ponto, no País, que
seu bonito livro de memórias, Diário de Bitita, foi publicado
primeiro na França em 1982, e apenas em 1986 foi editado no Brasil,
pela nova Fronteira. Seguindo por ordem cronológica de nascimento das escritoras negras,
lembro Ruth Guimarães, que nasceu em Cachoeira, no Vale do Paraíba
paulista, em 1920.. Neta de uma contadeira de "causos" herdou
do pai a cor negra e da mãe o gosto pela leitura. A carreira literária
começou cedo. O primeiro livro, Água Funda, foi editado
quando tinha apenas 26 anos. Trata-se de um romance regionalista, que
lhe deu o título de "revelação do ano",
aonde o narrador vai desfiando seus "causos", contando suas
histórias, desde o período em que ainda o negro era escravo.
Detém-se nas mudanças, nos reveses da vida - que não
poupam ricos nem pobres, brancos ou negros. Ruth tem publicado livros de estudos de folclore e participado da elaboração
de inúmeros dicionários e enciclopédias sobre variados
assuntos, além de livros de medicina popular. Até o ano
passado, com cerca de 67 anos, ainda lecionava no ensino público.
Em entrevista, afirmou que nunca sofreu descriminação, nem
como mulher, nem como negra. Tem pesado, porém, sobre Ruth Guimarães
a mesma discriminação sofrida por Auta de Souza e por vários
autores negros: o de não ser comprometida, através de seus
escritos, com a defesa e a projeção dos afro-brasileiros. Para encerrar, quero destacar três autores sobre as quais tenho
pouquíssimas informações biográficas. Laura
Santos, poetisa paranaense, cujo trabalho Sangue tropical foi premiado
pela Academia José de Alencar, de Curitiba, em 1953; a paulista
Vera Teresa de Jesus, autora de um livro de memórias, Ela e a reclusão,
publicada em 1965, onde se refere-se principalmente aos anos vividos na
marginalidade; e a mineira Anajá Caetano. Negra Efigênia, paixão do senhor branco, único livro
que localizei de Anajá Caetano, foi publicado em 1966. A história
remonta ao final do século XVIII, e relata a ocupação
e a expansão agrícola do Sul de Minas até o 13 de
Maio. Efigênia, escrava de uma senhora cruel, foi raptada para ser
esposa de um proprietário branco que, anos antes da Abolição,
já havia transformado os escravos em colonos. Para Anajá, a escravidão não destruiu a cultura
dos escravos, nem mesmo suas lideranças nativas. Cultura e liderança
eram reconhecidas pelos brancos. A crueldade do sistema centraliza-se
quase exclusivamente nas sinhás. Eram elas que castigavam duramente
os escravos, e sobretudo as escravas, sendo por isso desprezadas por seus
parceiros, como também por serem consideradas sexualmente devassas.
Os homens brancos, a Igreja e mesmo os escravos não condenavam
a união entre senhor-escrava. A história termina com as segundas núpcias de Efigênia,
abençoada pela Igreja Católica, com o amor do seu coração,
um jovem advogado branco, seu irmão de leite e proprietário
da fazenda onde ela fora escrava, justamente no 13 de Maio, quando brancos
e negros irmanados comemoravam a Abolição. Acredito que se fossem feitas pesquisas regionais cuidadosas, como também
repensados os critérios que determinam se uma escritora é
ou não negra, esta lista seria acrescida de muitos outros nomes.
Incluir Teresa Margarida da Silva e Orta como escritora negra, devido
à sua longínqua ascendência negra, certamente seria
insensato, pois mesmo vivendo no período colonial, quando existiam
discriminações legais contra os descendentes de negros,
ela teve uma vida de mulher branca de elite, confirmando-se a afirmação
de que o preconceito no Brasil é de marca, não de origem.
Porém não concordo com o critério, geralmente aceito,
de se considerar como escritor negro apenas aqueles assumidamente militantes. A produção literária de autoras e autores negros
tem permanecido sob o fogo cruzado da crítica e dos estudiosos
de literatura: aqueles que se dizem negros, ou afro-brasileiros, são
freqüentemente acusados de só tratarem de assuntos negros.
Aqueles que omitem a questão da cor, como Auta de Souza, não
são muitas vezes considerados negros. As mudanças dos quesitos cor nos censos brasileiros, desde 1871,
e mesmo a sua exclusão em 1970 são apenas um exemplo do
difícil problema de identidade enfrentado pelos negro e mulato
brasileiros. A produção literária e seus autores
apenas refletem este problema. Exigir coerência total, inquestionável,
por toda uma vida, destas escritoras e escritores negros é tirar-lhes
as características humanas e levá-los à condição
de super-heróis. E isto, a gente sabe, só existe no mundo
da fantasia. Repete-se, então, aquela velha e injusta história:
a mulher para ser considerada igual ao homem e o negro para ser considerado
igual ao branco precisa, sempre, provar que são melhores. Concluindo: parece existir uma conspiração do silêncio
em torno da ascendência de muitas escritoras e escritores brasileiros,
como se esta constatação pusesse em perigo o valor desses
autores. Por outro lado, a lembrança da origem do escritor tem
sido algumas vezes usada de maneira preconceituosa na tentativa de destruir
a sua obra. Basta lembrar o que fizeram com Carolina Maria de Jesus e
a dúvida em torno da autoria de seu livro. O texto de Cruz e Souza, Emparedado, traduz de maneira pungente a dificuldade
que se tem em aceitar a produção literária dos escritores
negros. Diz o poeta: "Eu pertenço não à velha
genealogia das intelectualidades medidas... Tu és de Cam, maldito,
répobro, anatemizado! Falas em Abstrações, em Requintes,
em Sonhos! Como se tu fosses da raça de ouro (...) Artista pode
lá isso tu ser se tu és da África, tórrida
e bárbara (...) grotesca e triste, melancólica, gênese
assombrosa de gemidos, tetricamente fulminada pelo banzo mortal (...)
Não! Não! Não! Não transportarás os
pórticos milenários da vasta edificação do
Mundo, porque atrás de ti e diante de ti não sei quantas
gerações foram acumulando, acumulando pedra sobre pedra,
que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça.
Se caminhares para a direita bateras e esbarrarás ansioso e aflito
numa parede horrenda e incomensurável de Egoísmo e Preconceitos!
Se caminhares para a esquerda outra parede de Ciências e Críticas,
mais alta do que a primeira, te mergulhará profundamente no espanto!
Se caminhares para frente nova parede, feita de Despeitos e Impotências,
tremenda, de granito (...) se elevará ao alto! Se caminhares enfim
para trás, ah! Ainda uma derradeira parede, fechando tudo (...)
horrível - parede de imbecilidade e ignorância, te deixará
num frio espasmo de terror absoluto...". Mais do que a rejeição e esquecimento, estas autoras precisam
de uma análise em conjunto. Suas vidas como seus escritos certamente
ajudarão a compreender não apenas questões específicas
"do ser negra no Brasil", como aquelas mais gerais que afetam
ou afetaram toda comunidade negra, como por exemplo, a da opressão
exercida pelas mulheres brancas sobre as mulheres negras, que perpassa
na obra de Anajá Caetano (daí talvez o perfil terrivelmente
depreciativo que atribui às sinhás); a da solidariedade
entre mulatos pobres e escravos, como transparece na vida de Maria Firmina
dos Reis; a da marginalidade econômica e educacional vivida por
homens e mulheres negros após a Abolição, tão
bem descrita por Carolina Maria de Jesus, no já citado diário
de Bitita; ou então, a identidade negra possível quando
o elemento negro foi criado, socializado, por brancos, como no caso de
Ruth Guimarães; ou ainda a relação entre ascensão
social e identidade negra, lembrando novamente o caso de Auta de Souza. "A experiência interior de um negro nenhum branco tem", afirma o poeta negro Cuti, numa entrevista publicada na revista Afinal (13-01-1987), ao que eu acrescentaria: a experiência interior de uma mulher negra, por razões sociais, nenhuma mulher branca ou homem, mesmo negro, tem. Escrever ou não escrever sobre homens e mulheres negras jamais anularia esta verdade. Nem clareando fotografias ou forjando dados no atestado de óbito. |