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Escritoras negras: resgatando nossa história

Maria Lúcia de Barros Mott

"Recuperar a produção literária de escritoras e escritores negros do passado, no Brasil, é difícil, pois vai além da omissão da origem étnico-racial nos textos críticos, nas histórias da literatura, nos dicionários e inclusive em algumas biografias especializadas." A partir desta constatação, a autora faz um levantamento preliminar das escritoras negras do passado e do presente e acena para a necessidade de uma pesquisa sistemática.

Este levantamento sobre as escritoras negras foi sendo elaborado aos poucos, ao longo dos doze anos que venho pesquisando a história das mulheres. Não é o resultado de um trabalho sistemático, trabalho que considero necessário e fundamental.
Minha preocupação em organizar estas anotações sobre as escritoras negras, anteriores aos movimentos negros tais como conhecemos hoje, deve-se primeiro à constatação de que muitos pesquisadores preocupados com a literatura escrita por negros, no Brasil. têm deixado de lado a produção literária das escritoras negras; segundo, pelo fato de os livros de literatura brasileira raramente fazerem menção à origem étnico-racial de nossos escritores o que reforça não só a imagem de Brasil branco, como ainda, a suposta incapacidade dos negros para o trabalho intelectual.
Recuperar a produção literária de escritoras e escritores negros do passado, no Brasil, é difícil, pois vai além da omissão da origem étnico-racial nos textos críticos, nas histórias da literatura, nos dicionários e inclusive em algumas biografias especializadas. Até mesmo a análise da imagem, através de fotografia, por exemplo, apresenta dificuldades, pois muitas vezes as fotos de estúdio forram "branqueadas".

Gostaria de 1embrar que sem a colaboração de Eduardo de Oliveira, Erich Gemeinder, Luiz Mott e Pedro Maia Soares, este trabalho dificilmente poderia ter sido elaborado.

É difícil não se impressionar com a produção literária das mulheres americanas negras do passado, se comparado com a das brasileiras: foi lançado recentemente nos Estados Unidos uma coleção composta de 30 volumes escritos no século XIX, que reúne poesia, ficção, memórias, diários e ensaios produzidos por escritoras negras.

Esta coleção, organizada pelo professor Henry Louis Gates Jr., é resultado de uma pesquisa iniciada em 1980, com o objetivo de recuperar a escrita das mulheres negras americanas. Foram levantados cerca de 12 mil textos de ficção, 18 mil poemas e 40 mil resenhas, publicados entre 1827 e 1940, produzidos por escritoras e escritores negros.

O livro mais antigo escrito por uma mulher negra nos Estados Unidos data do século XVIII, Poemas sobre vários assuntos, religiosos e moral, de Phillis Wheatley, publicado em 1773. No Brasil o livro mais antigo, de que se tem notícia, escrito por uma mulher negra, seria de Rosa Maria Egipicíaca da Vera Cruz, se o manuscrito não tivesse sido quase totalmente destruído por seu confessor quando a ex-escrava foi acusada em 1763 de heresia e falsa santidade. Segundo seu biógrafo Luiz Mott, o livro possuía mais de 200 páginas, algumas escritas por ela, outras ditadas a uma outra religiosa e versava sobre às visões e pensamentos de Rosa. Tinha por título Sagrada Teologia do Amor Divino das Almas Peregrinas. Assim como Phillis Wheatley, Rosa nasceu na África e foi trazida para o "novo mundo" como escrava. Phillis tinha 8 anos e Rosa apenas 6 anos.

Quando foi presa pela Inquisição, Rosa afirmou que era natural da Costa de Mina, e da nação courana. Aportou no Rio de Janeiro em 1725, onde permaneceu até os 14 anos, sendo aí deflorada pelo antigo proprietário e posteriormente vendida para Minas onde viveu por quase duas décadas como prostituta. Devido às possessões e visões, a escrava foi examinada por uma junta de teólogos e exorcistas, sendo considerada embusteira e por isso açoitada. Temendo novas represálias, mudou-se para o Rio de Janeiro levada pelo seu confessor, ex-exorcista e co-proprietário, onde fundaram o Recolhimento do Parto, em 1751, destinado a mulheres pobres, parte delas negras e mulatas.

Naquela cidade as visões e profecias de Rosa continuaram, devotos passaram a disputar as suas relíquias, até que o então bispo do Rio de Janeiro mandou que fosse presa e enviada para Lisboa a fim de ser interrogada pela inquisição.
O fato de Rosa não só saber escrever - aprendeu a escrever e a ler com mais de 30 anos, obrigada por visão celestial - , como o de ter iniciado um livro, deve ter tido enorme repercussão junto a seus fiéis, pois consta que havia um quadro, no altar do Recolhimento do Parto no Rio de Janeiro, representando sua figura com o Menino Jesus no colo de uma pena e uma caneta na mão.

Até meados do século XIX, o Brasil parece não ter conhecido nenhuma romancista nativa. Alguns autores consideram Teresa Margarida da Silva e Orta (1711 ou 12-1793), autora de Aventuras de Diófanes (l752),. como sendo à nossa primeira romancista, afirmativa que considero exagerada, pois ela,. embora tenha nascido em São Paulo, teve toda sua formação em Portugal, onde viveu desde os 4 anos de idade e onde estudou, se casou, teve seus 12 filhos, enviuvou, foi presa e morreu.
Pelo lado materno, Teresa possuía ascendência negra. Ernesto Ennes (1944), seu principal biógrafo afirma que a ascendência negra de D. Catarina (mãe da escritora) remontava ao 6º ou 7º grau.

Talvez esteja aí, na própria biografia de Teresa Margarida, a primeira dificuldade com a qual vai se deparar o pesquisador interessado na literatura escrita por negros no Brasil: quem considerar como escritora negra. Quem tem ascendência negra, como Teresa Margarida? Quem tem ascendência negra e aparenta ser negra? Quem tem aparência e ascendência e se considera negra? ou ainda: quem além da ascendência, aparência, se vê como negra, e escreve sobre negros? Voltarei a estas questões ao longo deste artigo.

Para alguns estudiosos Maria Firmina dos Reis, autora de Úrsula, seria a nossa primeira romancista. Caso esta afirmativa seja comprovada, a primeira romancista brasileira seria mulata, como, aliás, o precursor do romance brasileiro, Teixeira e Souza.

Maria Firmina dos Reis nasceu em 1825, em São Luís do Maranhão. Com pouco mais de 30 anos, em 1859, publicou Úrsula, sem contudo colocar o seu nome na capa, escondendo-se sob o pseudônimo de "uma maranhense". O livro conta à história de um amor infeliz entre uma órfã e um bacharel de Direito. O negro, enquanto escravo, tem presença marcante no livro. Embora a escravidão não seja o assunto principal do romance, os escravos têm um papel importante na trama, .possuem uma história, um passado, além de sentimentos nobres.

A narradora denuncia a violência do sistema escravista e questiona a sua legitimidade. Os escravos eram arrancados da terra natal, transportado como animais nos navios negreiros, reprimidos sadicamente em caso de justa revolta, .e separados de suas famílias, sem respeito algum aos seus sentimentos. Trabalhavam sem descanso, nem alimentação, roupas ou moradia adequadas. O já difícil cotidiano vivido pelo escravo tornava-se pior, devido às arbitrariedades sem limites praticadas pelos proprietários.

É preciso lembrar da posição corajosa de Maria Firmina ao denunciar a ilegitimidade e violência da escravidão, justamente no Maranhão, província que era considerada como sendo fortemente escravista. O fato de o vilão da história, aquele que persegue a irmã, mata o cunhado e o pretendente da sobrinha, ser o pior e mais cruel dos senhores, não quer dizer que a escravidão seja legítima para os escravos que possuem um bom senhor. Túlio e Suzana, escravos de Luiza B., proprietária boa e compreensiva não aceitam sua condição de "míseros e cativos".

Maria Firmina situa-se ao lado daqueles autores que condenam a escravidão porque ela era contrária às leis de Deus, e que acreditavam que o negro, apesar dos anos vividos sob o cativeiro, não tinha perdido as suas qualidades naturais. Difere neste ponto de autores contemporâneos, como Macedo, que condenavam a escravidão, dentre outras razões, porque ela corrompia o escravo e conseqüentemente contaminava a família branca.

A autora publicou, em 1887, um conto também abolicionista, chamado A escrava. O regime servil continua violento, separando a mãe dos filhos, escravizando pessoas de cor livres, colocando crianças na mais tenra idade no trabalho. Apesar de ter sido publicado já nas vésperas da abolição, quando os escravos no Sul abandonavam em massa as fazendas, os personagens escravos mantêm o mesmo perfil: fiéis, honestos, submissos, humildes e gratos. Será que a insistência da autora neste perfil escravo não significaria um alerta aos senhores de que, com a liberdade, os escravos não iriam se voltar contra os antigos proprietários?

A militância de Maria Firmina, segundo seu biografo Morais Filho, foi além da escrita: recusava-se a andar de palanquim, pois acreditava que "negro não era animal para se andar montado nele!" Publicou, ainda, um livro de versos românticos, e compôs letra e música de gosto popular, como hinos, valsas e autos para pastoral e bumba-meu-boi. Já nonagenária, morreu na casa de uma ex-escrava.

Continuando a lista das escritoras negra do século XIX, incluiríamos Luciana de Abreu, caso sejam comprovados os dados fornecidos por militantes do movimento Negro de Porto Alegre, de que a escritora era negra.

Andradina de Oliveira, escritora também gaúcha, em uma pequena biografia de Luciana de Abreu, assim escreveu os traços da conterrânea: "rosto moreno pérola, grandes olhos dulcorosos, fronte emoldurada por cabelos escuros". Moreno pérola seria um eufemismo para se referir à cor mulata da escritora?

Nascida em Porto Alegre, em 1847, filha de pais incógnitos, Luciana foi colocada na roda dos expostos da Santa Casa de Misericórdia. No livro da Irmandade de São Miguel das Almas, que registra a sua morte, no item cor, aparece como sendo de cor branca (também Machado de Assis foi tido como branco no seu atestado de óbito). A tradição oral, guardada por ex-alunos de mestres da Escola Luciana de Abreu, e que me foi transmitida por Jussara Ávila, no Movimento Negro de Porto Alegre, refere-se porém à sua ascendência negra.

Adotada por um guarda-livro, após completar o curso primário, permaneceu na escola como assistente da professora. Já mãe, formou-se professora e concorreu para uma vaga no ensino público, sendo preterida apesar da brilhante colocação.

Esta não foi a primeira vez que Luciana viu desencorajada de continuar suas aspirações intelectuais: foi alvo de chacota de suas colegas de classe quando souberam que escrevia um romance. Qual a razão destas atitudes hostis? Não estariam relacionadas com o preconceito existente na nossa sociedade que descrimina não somente as mulheres inteligentes como sos negros e todos aqueles considerados de origem dita duvidosa?

Luciana fez conferências no Partenon Literário, sociedade que agregava intelectuais, defendendo a educação das mulheres e a emancipação gradual dos escravos. Isto, em 1873, 7 anos antes de morrer.

Se até aqui falei de escritoras pouco conhecidas e menos ainda festejadas nacionalmente, destacarei agora Auta de Souza, cujo livro Horto teve sem 3 edições entre 1901 e 1936, e recebeu preciosos elogios da critica, não sendo esquecida nas histórias da literatura e nas antologias, como em geral acontece com as demais escritoras brasileiras.

Apesar do belo retrato da autora, que ilustra o seu livro Horto, deixar à mostra a ascendência negra da escritora, alguns biografos parecem tentar ocultar, como se este fosse um dado desnecessário ou negativo. Por outro lado, certos críticos têm reservas em considera-la escritora negra ou afro-brasileira, pelo fato de não se referir a assuntos ou personagens negros em seus escritos.

Também os biógrafos e críticos não fazem menção à ascendência negra de Gilka Machado, poetiza carioca, nascida em 1893. A única referência deve-se Afrânio Peixoto que, comentando com Humberto de Campos um encontro que teve com a poetisa, disse ter ficado surpreso por ter diante de si uma "mulatinha escura", bem diferente da mulher branca que conhecera por fotografia.

Acredito que este depoimento de Afrânio Peixoto deve passar pelo crivo de uma boa pesquisa. Se as fotos de Gilka foram "clareadas", talvez o fato de a poetisa ser mulata explique, em parte, alguns dos comentários bastante preconceituosos sobre a sua vida e sua obra. Humberto de campos reproduz em seu Diário Secreto um comentário feito por Lindolfo Gomes, que responsabilizava Gilka pela "perdição" de muitas moças, devido "a seus versos cheios de sensualidade animal".

Em 1901, nascia em Florianópolis, Antonieta Barros, que viria a ser professora, jornalista, escritora e primeira mulher eleita para a Assembléia Legislativa de seu Estado, em 1934.

Antonieta escreveu na imprensa de Santa Catarina, utilizando o pseudônimo de Maria da Ilha. Fundou e dirigiu o jornal A Semana (1922-1927) e Vida Ilhoa (1930). Os artigos publicados no jornal República foram reunidos e editados em forma de coletânea, em 1937, e reeditados em 1971, recebendo o nome de Farrapos de idéias. Referem-se a aspectos da vida cotidiana da cidade, comentários sobre ocorrências nacionais e, principalmente, a ensinamentos de cunho moral. Aí, dento dos limites cristãos, encontramos uma Antonieta preocupada com o pacifismo, com a necessidade de uma campanha nacional pela alfabetização, com as diferenças sociais e com os papeis sexuais.

Em Diário de Bitita, a mineira Carolina Maria de Jesus diz não ter certeza se nasceu em 1914 ou já na década de 20. Neta de escravos criados, pela mãe, passou toda sorte de necessidade, sendo obrigada a abandonar a escola primária para trabalhar numa fazenda. Quando alfabetizada, lia tudo que lhe emprestava: a Bíblia, romance como A Escrava Isaura, livros de história, etc.. Perambulou por várias cidades do Sul de Minas Gerais e do Oeste Paulista a fim de tratar das pernas doentes, empregando-se como doméstica, tendo sido trazida para São Paulo por uma patroa.

No livro Quarto de Desejo, já encontramos Carolina vivendo na favela do Canindé, em São Paulo, mãe de três filhos, sobrevivendo com o dinheiro obtido pela venda de papéis e outros objetos encontrados no lixo, e escrevendo. Cortejada por novo pretendente, Carolina registrava no seu diário: "Manuel apareceu dizendo que queria casar-se comigo. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E depois um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E levanta para escrever. E que deita com lápis e papel debaixo do travesseiro".

Com o sucesso de Quatro de Despejo, que teve várias edições e foi traduzido em mais de 20 países, obteve enorme espaço nos meios de comunicação, porém, ainda hoje, algumas pessoas olham com reservas a obra de Carolina, negando inclusive a autoria de seus livros, atribuindo Quarto de Despejo ao jornalista Audálio Dantas. Esta não é a primeira vez que o livro de uma escritora negra tem a autoria atribuída ao apresentador da obra. Lembro aqui incidentes na vida de uma escrava, contados por ele mesma, da americana Harriet Jacobs, que por mais de um século foi considerado como tendo sido escrito por uma abolicionista branca.

O desprezo à escritora chegou a tal ponto, no País, que seu bonito livro de memórias, Diário de Bitita, foi publicado primeiro na França em 1982, e apenas em 1986 foi editado no Brasil, pela nova Fronteira.

Seguindo por ordem cronológica de nascimento das escritoras negras, lembro Ruth Guimarães, que nasceu em Cachoeira, no Vale do Paraíba paulista, em 1920.. Neta de uma contadeira de "causos" herdou do pai a cor negra e da mãe o gosto pela leitura. A carreira literária começou cedo. O primeiro livro, Água Funda, foi editado quando tinha apenas 26 anos. Trata-se de um romance regionalista, que lhe deu o título de "revelação do ano", aonde o narrador vai desfiando seus "causos", contando suas histórias, desde o período em que ainda o negro era escravo. Detém-se nas mudanças, nos reveses da vida - que não poupam ricos nem pobres, brancos ou negros.

Ruth tem publicado livros de estudos de folclore e participado da elaboração de inúmeros dicionários e enciclopédias sobre variados assuntos, além de livros de medicina popular. Até o ano passado, com cerca de 67 anos, ainda lecionava no ensino público. Em entrevista, afirmou que nunca sofreu descriminação, nem como mulher, nem como negra. Tem pesado, porém, sobre Ruth Guimarães a mesma discriminação sofrida por Auta de Souza e por vários autores negros: o de não ser comprometida, através de seus escritos, com a defesa e a projeção dos afro-brasileiros.

Para encerrar, quero destacar três autores sobre as quais tenho pouquíssimas informações biográficas. Laura Santos, poetisa paranaense, cujo trabalho Sangue tropical foi premiado pela Academia José de Alencar, de Curitiba, em 1953; a paulista Vera Teresa de Jesus, autora de um livro de memórias, Ela e a reclusão, publicada em 1965, onde se refere-se principalmente aos anos vividos na marginalidade; e a mineira Anajá Caetano.

Negra Efigênia, paixão do senhor branco, único livro que localizei de Anajá Caetano, foi publicado em 1966. A história remonta ao final do século XVIII, e relata a ocupação e a expansão agrícola do Sul de Minas até o 13 de Maio. Efigênia, escrava de uma senhora cruel, foi raptada para ser esposa de um proprietário branco que, anos antes da Abolição, já havia transformado os escravos em colonos.

Para Anajá, a escravidão não destruiu a cultura dos escravos, nem mesmo suas lideranças nativas. Cultura e liderança eram reconhecidas pelos brancos. A crueldade do sistema centraliza-se quase exclusivamente nas sinhás. Eram elas que castigavam duramente os escravos, e sobretudo as escravas, sendo por isso desprezadas por seus parceiros, como também por serem consideradas sexualmente devassas. Os homens brancos, a Igreja e mesmo os escravos não condenavam a união entre senhor-escrava.

A história termina com as segundas núpcias de Efigênia, abençoada pela Igreja Católica, com o amor do seu coração, um jovem advogado branco, seu irmão de leite e proprietário da fazenda onde ela fora escrava, justamente no 13 de Maio, quando brancos e negros irmanados comemoravam a Abolição.

Acredito que se fossem feitas pesquisas regionais cuidadosas, como também repensados os critérios que determinam se uma escritora é ou não negra, esta lista seria acrescida de muitos outros nomes. Incluir Teresa Margarida da Silva e Orta como escritora negra, devido à sua longínqua ascendência negra, certamente seria insensato, pois mesmo vivendo no período colonial, quando existiam discriminações legais contra os descendentes de negros, ela teve uma vida de mulher branca de elite, confirmando-se a afirmação de que o preconceito no Brasil é de marca, não de origem. Porém não concordo com o critério, geralmente aceito, de se considerar como escritor negro apenas aqueles assumidamente militantes.

A produção literária de autoras e autores negros tem permanecido sob o fogo cruzado da crítica e dos estudiosos de literatura: aqueles que se dizem negros, ou afro-brasileiros, são freqüentemente acusados de só tratarem de assuntos negros. Aqueles que omitem a questão da cor, como Auta de Souza, não são muitas vezes considerados negros.

As mudanças dos quesitos cor nos censos brasileiros, desde 1871, e mesmo a sua exclusão em 1970 são apenas um exemplo do difícil problema de identidade enfrentado pelos negro e mulato brasileiros. A produção literária e seus autores apenas refletem este problema. Exigir coerência total, inquestionável, por toda uma vida, destas escritoras e escritores negros é tirar-lhes as características humanas e levá-los à condição de super-heróis. E isto, a gente sabe, só existe no mundo da fantasia. Repete-se, então, aquela velha e injusta história: a mulher para ser considerada igual ao homem e o negro para ser considerado igual ao branco precisa, sempre, provar que são melhores.

Concluindo: parece existir uma conspiração do silêncio em torno da ascendência de muitas escritoras e escritores brasileiros, como se esta constatação pusesse em perigo o valor desses autores. Por outro lado, a lembrança da origem do escritor tem sido algumas vezes usada de maneira preconceituosa na tentativa de destruir a sua obra. Basta lembrar o que fizeram com Carolina Maria de Jesus e a dúvida em torno da autoria de seu livro.

O texto de Cruz e Souza, Emparedado, traduz de maneira pungente a dificuldade que se tem em aceitar a produção literária dos escritores negros. Diz o poeta: "Eu pertenço não à velha genealogia das intelectualidades medidas... Tu és de Cam, maldito, répobro, anatemizado! Falas em Abstrações, em Requintes, em Sonhos! Como se tu fosses da raça de ouro (...) Artista pode lá isso tu ser se tu és da África, tórrida e bárbara (...) grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa de gemidos, tetricamente fulminada pelo banzo mortal (...) Não! Não! Não! Não transportarás os pórticos milenários da vasta edificação do Mundo, porque atrás de ti e diante de ti não sei quantas gerações foram acumulando, acumulando pedra sobre pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça. Se caminhares para a direita bateras e esbarrarás ansioso e aflito numa parede horrenda e incomensurável de Egoísmo e Preconceitos! Se caminhares para a esquerda outra parede de Ciências e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará profundamente no espanto! Se caminhares para frente nova parede, feita de Despeitos e Impotências, tremenda, de granito (...) se elevará ao alto! Se caminhares enfim para trás, ah! Ainda uma derradeira parede, fechando tudo (...) horrível - parede de imbecilidade e ignorância, te deixará num frio espasmo de terror absoluto...".

Mais do que a rejeição e esquecimento, estas autoras precisam de uma análise em conjunto. Suas vidas como seus escritos certamente ajudarão a compreender não apenas questões específicas "do ser negra no Brasil", como aquelas mais gerais que afetam ou afetaram toda comunidade negra, como por exemplo, a da opressão exercida pelas mulheres brancas sobre as mulheres negras, que perpassa na obra de Anajá Caetano (daí talvez o perfil terrivelmente depreciativo que atribui às sinhás); a da solidariedade entre mulatos pobres e escravos, como transparece na vida de Maria Firmina dos Reis; a da marginalidade econômica e educacional vivida por homens e mulheres negros após a Abolição, tão bem descrita por Carolina Maria de Jesus, no já citado diário de Bitita; ou então, a identidade negra possível quando o elemento negro foi criado, socializado, por brancos, como no caso de Ruth Guimarães; ou ainda a relação entre ascensão social e identidade negra, lembrando novamente o caso de Auta de Souza.

"A experiência interior de um negro nenhum branco tem", afirma o poeta negro Cuti, numa entrevista publicada na revista Afinal (13-01-1987), ao que eu acrescentaria: a experiência interior de uma mulher negra, por razões sociais, nenhuma mulher branca ou homem, mesmo negro, tem. Escrever ou não escrever sobre homens e mulheres negras jamais anularia esta verdade. Nem clareando fotografias ou forjando dados no atestado de óbito.

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